Textos, entrevistas, palavras e pensamentos publicados no noveletras.blogspot.com foram apagados por invasores. Da noite pro dia meu antigo blog sumiu. Como não vou poder usar o mesmo nome, estou de volta em novo endereço. Muito do que escrevi lá vocês vão poder ler aqui. Obrigada pela visita!!

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Pensamentos avulsos



Quietude no céu, no mar e na vida
Bom tempo de reflexão interior


quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Diante do infinito



Naquele banco em frente ao mar há um tanto de saudade e outro tanto de poesia.

"Era noite. Das areias brancas das dunas
o homem podia ver as águas tranquilas
da Lagoa da Conceição,
onde a lua banhava-se descuidadamente"


domingo, 17 de outubro de 2010

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

domingo, 8 de agosto de 2010

Entrevista ponto-com

Rose: Poeta, escritor, jornalista, professor, blogueiro... Fabrício Carpinejar nasceu para escrever?

Carpinejar: Para morrer com o rosto da página colado na página do rosto.

Rose: Existem ocasiões específicas em que se sente particularmente inspirado? Alguma vez você já teve problemas de não saber o que escrever?

Carpinejar: Eu me sinto inspirado quando não estou inspirado. No meio da diversão, sou tomado por um baque sonoro, o assalto de uma frase, o enredo de uma história, um assobio pedindo coleção. Gosto da espontaneidade do pensamento - quando faz amor no meio de uma sesta. Trabalho minha intuição nas folgas. Folgo minha intuição no trabalho. Não me lembro de estiagem. Talvez agora respondendo a tua pergunta.

Rose: Um livro já nasce pronto na sua cabeça ou as ideias vão sendo construídas aos poucos, página por página?

Carpinejar: Pouco a pouco, prefiro mentalizar, correr o risco de esquecer. Pesco sons. O bom de pescar com lança é que apanhamos, além do peixe, a sombra do peixe.

Rose: Você pensa no leitor quando escreve?

Carpinejar: Eu desejo o leitor quando escrevo.

Rose: Saber que cada leitor pode interpretar o que você escreve de maneiras diferentes te preocupa ou te anima?

Carpinejar: Me salva. Pode encontrar um caminho mais inteligente do que escolhi.

Rose: O escritor Cristóvão Tezza disse que aprendeu a escrever literatura à mão, por influência de Rio Apa, que escreveu todos os livros dele à mão. Ele acha que isso permite a lentidão exata da literatura. Seu processo de criação também tem algo peculiar?

Carpinejar: Meus dentes são tortos. Esse é o meu método. Mastigo as palavras. Vou falando sozinho até ser ouvido.

Rose: “O autor precisa ler o mundo para poder escrever”. Que livros ou escritores foram ou ainda são fundamentais na sua vida? Ou se existisse um “twitter literário” quais escritores você seguiria hoje?

Carpinejar: O autor precisa ler o mundo, e esquecer para reinventá-lo. E depois esquecer de novo o que inventou para ler o que não foi escrito. Eu seguiria José Lezama Lima, Caio Fernando Abreu, Jorge de Lima, Clarice Lispector. E Hilda Hilst, para soltar os cachorros dos olhos.

Rose: Por falar em twitter, o ator Hugh Laurie, estrela da série “House”, diz não entender esse serviço, embora tenha um perfil no microblog. Ele acha que as pessoas deveriam transformar esses 140 caracteres em alguma forma poética e não escrever só banalidades. Como você vê essa nova ferramenta de comunicação?

Carpinejar: Penso o mesmo: os epigramas ressuscitaram. Paladas que se cuide, o século IV está de volta. Twitter é a moldura perfeita para poesia e pensamento, densidade e claridade, mordacidade e provocação. Depende do estofo de cada um.

Rose: Leitor que gosta de um autor vai procurá-lo por todos os cantos. Ao contrário do que se pensava, você acha que a internet valorizou a literatura e o livro?

Carpinejar: Sim, criou uma interação maior. O livro ganhou um amigo imaginário. Antes ele ficava tão sozinho, sem ninguém para brincar ou para contar suas histórias.

Rose: Como aproximar as pessoas da literatura, da leitura, enfim, dos livros?

Carpinejar: Não adiando. Pegando o livro como quem segura uma xícara de café ou abre um jornal, para espiar, por curiosidade. O livro ainda é muito totêmico no Brasil.

Rose: Na “Epístola aos blogueiros” você diz que a diferença entre guardar o inédito no blog e na gaveta é que o blog é uma gaveta aberta. Na sua opinião o blog ainda é uma boa “prova de resistência” pra quem está começando?

Carpinejar: Cada vez mais porque passou o período de encantamento catártico, de uso como diário e muleta da vaidade. Quem tem blog quer fazer literatura, tornou-se um espaço de concentração, exercício responsável da autoria.

Rose: A internet dá voz a indivíduos anônimos. Textos de autoria duvidosa se multiplicam e são repassados numa velocidade incrível. Como você avalia isso? É sinal de avanço ou de perigo?

Carpinejar: Sempre existiu. A forma de evitar é ler um autor e não somente um texto. Avulso para mim é cartão de aniversário. Toda escrita depende de um corpo.

Rose: Você disse uma vez que há muitos grandes autores na internet que não publicaram e são mais escritores do que muitos que estão na estante. O preconceito ainda existe para a chamada "literatura da rede”?

Carpinejar: Existe o preconceito, só que está mudando velozmente. O blog já virou pré-história da rede. Já há uma velha geração de blogueiros, mesmo que eles tenham uma idade inferior a 40 anos.

Rose: Até que ponto você acha importante para um escritor estar num grande centro, em contato com outros artistas e escritores?

Carpinejar: É capaz de facilitar. mas prefiro não estar, porque a dificuldade estimula a fortalecer minha solidão. A periferia da arte faz com que a gente trabalhe bem mais antes do reconhecimento. No grande centro, o reconhecimento vem antes de qualquer trabalho e ficaremos devendo eternamente uma obra-prima.

Rose: “Sempre leio o que você escreve e sei que pode me ajudar...Gostaria de pedir seu conselho(...)”. Você recebe cartas com dúvidas sobre relacionamento no Consultório Poético. O que você aprende nesse contato com os leitores? Você se considera bom entendedor das ‘coisas do coração’?

Carpinejar: O coração depende de um bom pulmão para prender e soltar a respiração. Sou um calígrafo do suspiro, confessor de boteco. Adoro ouvir a letra. No Consultório Poético, defendo o palpite, o convívio, a abertura para a amizade. Não me escondo, eu me mostro tanto quanto aquele que se confessa. Nossa vulnerabilidade é o melhor amparo psicológico que podemos oferecer. Humanizar é permitir o erro.

Rose: As artes plásticas estão muito presentes em seu blog. São mera ilustração dos textos ou as pinturas têm um significado mais profundo?

Carpinejar: Bem mais profundo, às vezes demoro mais tempo escolhendo a pintura do que escrevendo a crônica. No meio do trabalho, já vem a arte que gostaria que me desafiasse. A pintura não é música ao vivo, de fundo de restaurante, é uma oposição dentro do palco. Uma outra voz que mexe com a minha palavra.

Rose: O poeta consegue separar o que ama do que escreve?

Carpinejar: Sim, eu amo principalmente o que não revisei.

Rose: Qual seu ritmo de trabalho hoje? Você se define ainda como um “maratonista de haicais”?

Carpinejar: Eu chego rápido dentro de minha lentidão.

Rose: Você tem mais de 10 livros publicados. Afinal, é mais difícil começar ou terminar uma obra?

Carpinejar: Minhas obras já estão reunidas em meu sangue, apenas continuo a jorrar.


*Entrevista publicada originalmente em julho de 2009.



domingo, 1 de agosto de 2010

Sensibilidade italiana


"Ladrões de Bicicleta"

O diretor Vittorio De Sica é destaque este mês na programação de cinema da Fundação Cultural BADESC, em Florianópolis. Quem ainda não viu filmes como "Ladrões de Bicicleta" e "Milagre em Milão" não pode perder as sessões gratuitas do Cineclube, que reserva espaço para o cinema italiano toda terça-feira, às 19h.

Confira a programação:

03/08
Dois garotos pobres vivem de engraxar sapatos, cultivando o sonho de comprar um cavalo branco. Após cometer um furto, acabam presos num reformatório. É o começo de muitos problemas. O filme levou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

10/08
Após a Segunda Guerra, a Itália está pobre e destruída. Ricci consegue um emprego de colador de cartazes, mas teria de ter uma bicicleta. Ao conseguir uma, é furtado no primeiro dia de trabalho e junto com o filho vai em busca da bicicleta roubada.

17/08
Totó viveu em orfanato até os 18 anos. Após esta idade, ele vai morar com miseráveis em um terreno. Ao descobrirem petróleo naquela área, os moradores são ameaçados pelo proprietário. Tudo parece perdido, até que Totó começa a fazer milagres.

24/08
A história de amor engraçada e comovente de Domenico e Filumena, com seus altos e baixos ao longo de 22 anos. Os encontros e desencontros entre os dois se sucedem em uma comovente comédia que é um dos maiores sucessos do cinema italiano.

31/08
Emocione-se com a história de um casal separado pela Segunda Guerra. Após anos sem notícias, ela viaja para a Rússia em busca do marido, atravessando cidades e campos de girassóis. Quando enfim ela o encontra, percebe que algo mudou entre eles.


A programação completa de cinema (alemão, francês, inglês, espanhol, brasileiro...) está disponível no site http://www.fundacaocultural.badesc.gov.br/


A Fundação Cultural BADESC fica na rua Visconde de Ouro Preto, 216, centro.
(48) 3224 8846


terça-feira, 20 de julho de 2010

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Ainda há tempo




Está mais do que na hora de cada um descobrir o bem, cultivá-lo e depois espalhar as sementes por esse mundo afora.


segunda-feira, 5 de julho de 2010

Outra semana


"Coco avant Chanel"

Cinema de graça em plena segunda-feira. Começa hoje a exibição de filmes franceses no Cineclube da Fundação Cultural BADESC, em Florianópolis. As sessões iniciam às 19h.

A programação deste mês tem:

05/07
Coco antes de Chanel - Coco avant Chanel - França, 2009.
De Anne Fontaine . Com Audrey Tautou , Benoît Poelvoorde e Alessandro Nivola. 110'. 14 anos.
Este drama biográfico mostra a história de Gabrielle "Coco" Chanel, que começou a vida como uma órfã teimosa e, ao longo de uma jornada extraordinária, se tornou a lendária estilista de alta costura que personificou a mulher moderna e se tornou um símbolo atemporal de sucesso, liberdade e estilo.

12/07
O desafio de Jean de la Fontaine - Jean de la Fontaine, le défi - França, 2006.

De Daniel Vigne. Com Philippe Torreton, Sara Forestier. em Cores. Duração 100’. Livre.

Paris ecoa de mil ruídos nesta manhã de 5 de setembro do 1661: Fouquet, poderoso conselheiro do rei, foi preso por ordem de Colbert. O jovem Louis XIV torna-se único chefe. Enquanto outros artistas, negando seus mecenas, correm para servir o rei todo poderoso, um homem levanta a voz para apoiar o superintendente que foi demitido: é o poeta Jean de la Fontaine.
Colbert jura então fazer calar o rebelde, único artista do reino que ousa colocar sua arte acima do rei. Mas La Fontaine, mesmo na miséria, não desdirá suas convicções. Sem dinheiro, ele resiste, brinca, observa, escreve as Fábulas, panfletos assassinos contra o regime despótico. La Fontaine / Colbert : é o combate da arte e do poder.

19/07
Piaf - Um hino ao amor - La Môme - França, 2007.
De Oliver Dahan. Com Marion Cotillard, Sylvie Testud e Gérard Depardieu. 140'. 14 anos.
A desconhecida Édith Giovanna Gassion demorou a conquistar prestígio como cantora. Após ser descoberta por um caça talentos, ganhou o apelido de Piaf (passarinho, em francês) e passou a cantar em cabarés bem freqüentados.


26/07
Camille Claudel - França, 1988.
De Bruno Nuytten. 175 min. Com Isabelle Adjani, Gérard Depardieu e Laurent Grévill. 175'. 14 anos.

Em Paris, em 1885, a jovem escultora Camille Claudel entra em conflito com a sua família ao tornar-se aprendiz do famoso Auguste Rodin. Quando se torna amante do mestre, cai em desgraça junto à sociedade parisiense. Roteiro baseado em obra de Reine-Marie Paris.




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domingo, 27 de junho de 2010

Pensamentos avulsos




Enxergamos a vida de acordo com a nossa atmosfera interior.


quinta-feira, 3 de junho de 2010

Você e eu, no cinema

Filme "Toi et Moi"

Na segunda-feira, dia 7, novos filmes entram em cartaz no Ciclo de Cinema Francês da Fundação Cultural BADESC, em Florianópolis. As sessões no Cineclube começam sempre às 19h e são gratuitas.

Segue a programação:

07/06
Quando você descer do céu - Quand Tu Descendras du Ciel (França, 2003).

De Éric Guirado. Com Benoît Henriet, Jean-François Gallotte, Serge Riaboukine. Drama em Cores. Duração 100’. Classificação etária Livre.

* Roteiro de Michel Fessler (Marcha dos Pinguins) *
Desde que o pai morreu, Jérôme e sua mãe se esforçam bastante para manter a pequena fazenda da família. Na época do Natal, Jérôme decide se mudar para a cidade em busca de emprego, onde fica por alguns meses e acaba fazendo amizade com La Chignole, um vagabundo desbocado.
Jérôme começa a trabalhar com Lucien na prefeitura, enfeitando as árvores da cidade para o Natal. Mas, o trabalho começa a ficar complicado quando lhe é dada outra função: limpar a cidade dos mendigos e vagabundos para as festas de fim de ano.
Jérôme continua acatando as ordens de Lucien, até que um dia descobre que entre os vagabundos está La Chignole, seu amigo.


14/06

Você e eu - Toi et moi (França, 2006).

De Julie Lopez-Corval. Com Chantal Lauby, Eric Berger, Jonathan Zaccai, Julie Depardieu, Marion Cotillard. Romance em Cores. Duração 90’. Classificação etária Livre.

Redatora de foto-novela para a revista "Você e eu", Ariane tende a escrever sua vida amorosa e a de sua irmã Lena, reinventando um pouco. No entanto, suas vidas não têm nada de novela: Ariane fica presa ao Farid que não se interessa por ela, e Lena está entediada com seu namorado, François.
Mas, se Ariane se entregasse ao amor de Pablo, o belo operário que trabalha no prédio? E se Lena se apaixonasse por Mark, o violinista prodígio que acaba de encontrar?
Entre realidade e foto-novela, as duas irmãs encontrarão o grande amor?


21/06

Tilaï (França, 1990).

De Idrissa Quedraogo. Com Ina Cisse, Rasmané Ouédraogo. PB. Duração 81’.

*Ganhador do Grande Prêmio do festival de Cannes 1990*
*Ganhador do Etalon de yennegna*
*Prêmio de Melhor Música, Fespaco 1991*
Saga volta a aldeia depois de uma ausência de dois anos. Muitas coisas mudaram. Sua noiva Nogma é agora a segunda esposa de seu pai, mas Saga e Nogma ainda se amam. Transgredindo as leis, os dois jovens têm um caso. Kougri, seu próprio irmão, é designado para matá-lo. este deixa o irmão escapar e Saga refugia-se junto a uma tia, onde Nogma vai viver com ele. Vivem felizes até o dia que Saga fica sabendo que a mãe está morrendo. Ele decide então voltar para a aldeia.


28/06

Minha vida no ar - Ma vie en l'air (França, 2005).

De Rémi Bezançon. Com Marion Cotillard, Vincent Elbaz. Comédia em Cores. Duração 103’. Classificação etária Livre.

Instrutor para uma companhia aérea, Yann Kerbec avalia as capacidades dos pilotos com simuladores de vôo, em situações extremas. Mas Yann tem um problema: ele tem pavor de avião, um pânico originado no seu nascimento, e que o impediu, quando jovem, de seguir a mulher de sua vida do outro lado do mundo. Hoje, ele tem 30 anos e desenrola o fio de seu trauma, com nostalgia e humor faz o balanço de sua histórias de amor fracassadas por conta de sua fobia. Entre sua batalha para melhorar a segurança aérea e a gestão bastante falha de sua vida sentimental, Yann se encontra num cruzamento: vencer seus demônios e aceitar crescer...


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quinta-feira, 20 de maio de 2010

Entrevista ponto-com

Rose: Você faz comentários na TV, tem programa na Rádio, escreve para dois jornais, faz palestras e ainda encontra tempo para uma série de outros compromissos como, por exemplo, essa entrevista aqui. Quem é você, Luiz Carlos Prates?

Prates: Não sou muito afeito a pândegas, mas a resposta que posso dar é não sei. Se soubesse, talvez fosse um sujeito mais em paz comigo mesmo. Tento descobrir, mas acho que será uma luta inútil. Se me perguntasses do que mais gosto, diria que é de justiça. A cada um segundo suas obras, vale para mim. Quando erro, pago. Não chio. Fui burro, pago.

Rose: Você se considera hoje um jornalista-psicólogo ou um psicólogo-jornalista?

Prates: Considero-me, antes de mais nada, um observador dos costumes, sou mais psicólogo que jornalista. Juntando psicologia e jornalismo, acho que dá um casamento de boas qualidades, de vida intensa.

Rose: Achar pautas diárias e interessantes não é tarefa fácil. É um trabalho incansável, um verdadeiro garimpo da informação. Nós jornalistas sabemos que não dá pra ignorar nem mesmo a leitura de um rodapé de página. Sei que você é um leitor voraz. Mesmo assim de onde vem a inspiração para “alimentar” os comentários que você faz diariamente em três veículos de comunicação?

Prates: A leitura farta e diversificada me dá a matéria-prima de onde vem as “inspirações” mas é do olhar atento aos fatos do cotidiano que surgem os “roteiros” de assuntos. Claro que o assunto encontrado precisa ser respaldado por ideias já de prontidão na memória, como resultado das leituras que podem mais e melhor ilustrar o que foi achado nas mais diversas formas de observação.

Rose: As pessoas estão ficando mesmo cada vez mais complicadas e vazias ou isso é só mais uma impressão minha?

Prates: As pessoas andam sem norte existencial, isto é, sem razões por que lutar. Faltam-lhes sonhos, virtudes, valores, suas vidas andam vazias, só preenchidas, quando o são, por bens materiais. Espiritualidade está em extinção, vale hoje o ter e nada ou muito pouco o ser. Daí as angústias, os vazios, as infelicidades, as drogas, as doenças e a morte antes do tempo...

Rose: Em entrevista à revista Veja o empresário, jornalista e publicitário João Dória Jr disse que prefere caminhar com cães a caminhar com ladrões. Sei o quanto você gosta de cachorros e o quanto fica indignado com a atual situação do nosso país. O que o homem ainda não aprendeu e que já deveria ter aprendido com os animais?

Prates: Os animais são fiéis, nada nos pedem, sacodem-nos o rabinho quando menos o merecemos... Eu também prefiro os cães aos muitos conhecidos que me cruzam pelo caminho das falsidades, todos os dias. Quem tem na vida três verdadeiros amigos, quem? Só quem tem três cãezinhos...

Rose: Você é um dos maiores incentivadores da leitura que eu conheço. Toda hora, todo instante você está escrevendo e falando sobre a importância dos livros na vida das pessoas. O que fazer para tornar a leitura um hábito num país onde a maioria da população não gosta de ler?

Prates: O que se pode fazer é ler e falar de livros e dizer às pessoas que elas podem ser o que quiserem na vida a partir das leituras. Mas é bobagem dizer que pai que lê faz filhos que leem... A leitura é uma descoberta, podemos incentivar, como podemos levar um cavalo ao bebedouro, mas não podemos fazer o cavalo beber água.

Rose: Falta leitura também aos “doutores” do Brasil?

Prates: Universitários não leem, doutores não leem, salvo as escassíssimas exceções. E jornalistas, na regra, são os que menos leem. Leitura é para poucos, ainda que possa, e devesse, ser de todos. É que leitura exige esforços, concentração da mente, exige quietude que os inquietos da preguiça não suportam.

Rose: Dizem que os livros podem mudar as pessoas. Mas é preciso saber que tipo de livro ler. Você arriscaria uma sugestão de leitura para quem quer começar a se apaixonar pelos livros?

Prates: A leitura que recomendo aos que se querem iniciar no “vício” é ler o que primeiro lhes der prazer, sempre deixando a porta aberta para o novo, para a curiosidade. Começa-se com o trivial, com a leitura fácil, prazerosa e passa-se, naturalmente, a textos mais densos. Mas quando isso acontece, o denso torna-se prazeroso, têm-se já aí a capacidade de compreendermos o que é lido. São estágios. Melhor é começar pelos primeiros degraus, evita tropeços de cansaço...

Rose: Se você escrevesse um livro sobre sua filosofia de vida, qual seria o título?

Prates: “Quem não tem talento tem que ter inteligência emocional”, seria o título do meu livro. A desprezível inteligência emocional é a arte de engolir sapos, e quem costuma engolir sapos não tem talento. Os talentosos rugem, bradam, não se conformam, discutem, tornam-se antipáticos. Eu tenho talento? Não sei, sei que não me conforma a linha de montagem das condutas dos pífios que não discutem com seus “senhores” a magnitude da razão, das decências e da justiça de dar a cada um segundo suas obras, ou talentos...

Rose: Você acredita em livros que ensinam fórmulas do tipo “tudo o que se precisa saber sobre ‘alguma coisa’ ”?

Prates: Não, não creio que um livro me possa ensinar tudo de que preciso sobre alguma arte ou ofício. O que o livro, o melhor deles, me pode fazer é “despertar o apetite” por essa arte ou ofício. O resto é comigo, o desbravar a floresta do sucesso e do bom caminho só se acha com as próprias pernas, braços e cabeça. Claro, acima de tudo o coração.

Rose: Há passeatas no mundo inteiro defendendo e pregando o respeito à diversidade disso e daquilo. No fundo, no fundo você não acha que o que as pessoas querem mesmo é ser iguais? Basta olharmos nas ruas... as roupas, os acessórios, as tatuagens...

Prates: As pessoas andam por igual, vestem-se, falam, consomem por igual, não por vontade de ser igual mas por medo de ser desigual. Outras, as mais frágeis, não tendo coragem para andar na contramão dos modismos, juntam-se aos rebanhos dos iguais. No fundo, todos poderíamos ser formidavelmente desiguais, cada um com sua marca registrada. Mas isso nunca vai acontecer, quem não nasce com o grito de independência no peito, segue o caminho da maioria. E a maioria é a maioria.

Rose: Lembrei agora de um comentário que você fez na rádio sobre pessoas que tomam anfetaminas e outras drogas para emagrecer de qualquer jeito. Em determinado momento você disse que as curvas mais desejadas por alguém deveriam ser as curvas da inteligência. Deveriam, mas não são. Por que?

Prates: As pessoas, por razões diferentes, têm, em maioria, baixa auto-estima. E isso as leva a viver de modo ansioso, infeliz. Os remédios para dormir ou ter paz são anestésicos existenciais de que se valem. Mas todas podiam ser belas, belíssimas, se desenvolvessem os talentos de que são possuidoras e não sabem. O problema é que a maioria quer ter os talentos dos outros, desdenhando dos seus. A vida é um teatro, é de Shakespeare a ideia, e se é um teatro, cabe-nos interpretar bem o nosso papel e não o dos outros. Nunca vai dar certo quando trocamos os nossos papéis.

Rose: As pessoas que fazem sucesso no Brasil e no mundo não servem muitas vezes como referência ou como bons exemplos para ninguém. Você acha que os jovens estão se iludindo com essa história de “celebridade instantânea”? Paris Hilton, por exemplo, está sempre em evidência e, acredite, tem quem a admire...

Prates: As celebridades de hoje são, mais das vezes, sim, efêmeras, porque são celebridades assentadas sobre modismos, ou sobre dinheiro fácil e rápido. A verdadeira celebridade é duradoura e assenta-se sobre um valor que só tende a crescer com a passagem do tempo. E essas celebridades resultam de um talento intelectual ou artístico de qualquer tipo. A celebridade de Paris Hilton é a celebridade da beleza, da moda usada ou dos lugares em que ela aparece. Nada mais. Isso não é celebridade, é fugacidade.

Rose: Como você já disse uma vez “a vulgaridade é mais saliente que a virtude”. Sabemos que hoje em dia aparência é o que conta. Carros, casas, roupas e lugares da moda tentam preencher os nadas existenciais de muita gente. Será que um dia as aparências vão mesmo perder a pose? Ou isto já é um problema crônico da humanidade?

Prates: As aparências sempre estiveram na moda, de certo modo, sempre. Não duram, todavia. Elas sempre abrem espaço para novos modismos. As aparências que resultam dos talentos da mente esses são duradouros, provocam invejas, ódios. Quem não pode externar a beleza dos talentos da mente, engana-se, e aos outros, com as aparências que podem ser notadas com os olhos. O talento, a arte, a genialidade sempre serão objetos de admiração e invejas. Exigem, claro, muitos esforços para seu polimento. Os indolentes preferem ignorar seus talentos e invejar os alheios, ou compensá-los com vulgaridades.

Rose: Outro dia num texto você criticou um encontro de mulheres que aconteceu em São Paulo. O tema da palestra era “como não perder o seu homem”. Lembro que você perguntava “por que não se reuniram para discutir sobre 'inabilidades' deles em momentos 'especiais' "? Você dizia também que a maioria das mulheres não tem feito outra coisa senão correr atrás de bobões infantis, com tamanho de homem e comportamento de crianças tolas. As mulheres se preocupam mais com os homens do que eles com elas? Regra geral ou ainda há exceções?

Prates: A mulher está “confinada” em muitos condicionamentos sociais, criados mais das vezes pelos homens, mas sempre concordados por elas. Ao menos no modo de agir. A mulher “tem” que ser mãe, o homem não. A mulher tem que casar, o homem só se quiser... A mulher precisa, ao casar, ser esposa, mãe e amante, o homem não. A mulher tem sempre que acompanhar o homem, o homem não... E isso está, inclusive, na Bíblia. A mulher, enfim, tem que segurar o marido, o homem não tem necessariamente que segurar a mulher, a esposa. São condicionamentos, não é biologia. Mas elas não querem romper com os condicionamentos, não querem.

Rose: Ultimamente tenho visto muitos homens reclamando do trabalho e dos compromissos diários. Posso estar enganada mas eles parecem mais desanimados, mais cansados de cumprir tarefas do que as mulheres. São eles também que apresentam mais atestados médicos e que faltam mais ao trabalho. Você concorda comigo?

Prates: Não, não concordo. Os homens que mais faltam ao trabalho e valem-se de licenças médicas são os do funcionalismo público, protegidos que estão pela malfadada vitaliciedade. Os homens frouxos não lutam, querem mais é qualidade de vida, são os indolentes sem ânimo nem projetos existenciais. O trabalho não realiza tanto a mulher quanto o homem, aí não sei se é só condicionamento cultural ou se há de biológico na questão. Admito que as duas coisas... O homem sem a realização profissional é um frustrado, ele pode dizer que não mas mentirá se o disser. O trabalho é tudo na vida dos homens, dos Homens, quero dizer.

Rose: Problemas, obstáculos e dores de cabeça também podem ser grandes oportunidades disfarçadas?

Prates: Problemas são obstáculos que nos testam o ânimo da causa por que lutamos ou pensamos lutar. Os frágeis acham nos problemas desculpas para não ir adiante. Os obstinados veem nos problemas apenas estágios naturais na caminhada para o topo da montanha do ser. Subir "montanhas" sem percalços é sonho ou ideia de gente fraca.

Rose: Você diz que quem não "casar" por amor, por vocação, com sua atividade profissional estará condenado a passar pela vida gemendo. As pessoas estão sabendo escolher a profissão certa?

Prates: Não, as pessoas não estão sabendo escolher suas profissões, até podem saber o que gostariam de fazer mas não têm, mais das vezes, coragem para assumir seus gostos. Mais das vezes, é o mercado quem decide pela escolha profissional, é a vontade do pai, da mãe, da sociedade. A pessoa pergunta o que é que paga mais, e decide-se. Na verdade, muitas vezes, deixa para trás o seu sonho de vida, e atira-se numa carreira infeliz ou porque ela está na moda ou porque presumidamente pagará mais e melhor...Vivemos a época do sacrificar os sonhos, o ser, pelo ter, pelo parecer ser...

Rose: O que está faltando para melhorar a educação no país? O cidadão está saindo da escola hoje sabendo falar e escrever certo o português?

Prates: O que mais falta para fortalecer a escola é boa estrutura familiar. A boa estrutura de família educa bons filhos, exige bons professores, conhece-os, cobra da escola, forma cidadãos. Os professores vivem sem graça suas missões, ganham pouco, nada tiram de prazer senão o minguado salário, e quem tira do trabalho apenas o ganho financeiro, ganhe o que ganhar, será sempre mal pago. Português é língua em extinção entre os brasileiros, brasileiros que nem sabem mais que língua falam. E os jovens estão cada vez mais estúpidos, falando por monossílabos e grunhindo como bichos. É a moda do "internetês". Vão pagar caro por isso, nas entrevistas de emprego e no tentar profissões que lhes vão exigir proficiência em língua portuguesa.

Rose: E a tão falada reforma ortográfica você acha necessária?

Prates: Não, não acho que seja necessário que se mexa na língua portuguesa, o Brasil tornou-se muito grande para buscar aliança com "pequenas" nações. Precisamos fazer como fizeram os americanos ao se tornarem independentes da Inglaterra. Os americanos criaram o inglês americano, mudaram ortografias, criaram suas expressões idiomáticas e modos de pronunciar. Libertaram-se completamente dos ingleses. O Brasil já tem hoje consagrado o seu português brasileiro. Mexer outras vez nas regras do idioma é caro e inútil. Independência ou... subserviência. Língua pátria é poder.

Rose: A Internet está transformando as relações humanas. O mundo de verdade está sendo substituído, aos poucos, pela fantasia. De alguma forma isso está bloqueando o desenvolvimento das emoções? Você vê mais pontos positivos ou negativos na Internet?

Prates: A Internet é hoje o refúgio dos tímidos, dos fracos, dos sem-coragem. Além de ser uma formidável trincheira de mentiras. TODOS os que entram nesse território da modernidade comunicativa mentem. Enganam-se, não dizem de suas verdades. A Internet só se justifica para saudáveis pesquisas e estudos eventuais. Para mais nada. Claro, mais que tudo, para passatempo de cabeças pobres.

Rose: O que definitivamente te tira do sério?

Prates: O que me tira do sério é a injustiça, o crime não punido com o rigor devido. Justiça malfeita me deixa irado. Vivo, por isso, irado. Ah, e também a falta de gratidão e de cortesias entre as pessoas próximas. Se alguém me presta um bom favor nunca mais o esquecerei, mas a regra é o esquecimento.

Rose: E o que te deixa feliz?

Prates: A realização de um bom comentário ou de um bom texto. E não preciso ouvir elogios para viver essa felicidade. Eu a vivo sozinho, quieto, sei me avaliar nessas questões. É por isso que me envolvo tanto com o trabalho, só ele me produz as endorfinas do prazer.

Rose: Por que morar em Florianópolis?

Prates: Primeiro por circunstâncias profissionais, acidentais. Hoje por legítima opção.

Rose: Qual a pergunta que ninguém fez ainda e que você gostaria de responder agora?

Prates: A pergunta? Não sei. Talvez uma arguta psicanalista me pudesse fazer falar. Arguta, eu disse, daquelas que fazem a pergunta sabendo a resposta...


* Entrevista publicada originalmente em outubro de 2007.


quinta-feira, 13 de maio de 2010

Sob o céu, sobre o mar

Há coisas que já se transformaram em poesia para nossos olhos.












*Fotos da Ponte Hercílio Luz (em Florianópolis) que hoje completa 84 anos.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Sinais do futuro

"A maioria de nós acha que quando há uma intervenção divina, é sempre algo grande. Mas pode ser também uma coisa pequena que parece tão insignificante no momento, mas acaba sendo o ponto decisivo em sua vida.

Grande ou pequeno, e se esse momento afetasse todo mundo, em todo lugar exatamente ao mesmo tempo? O que significaria pra você? Onde procuraria respostas?

Em algum ponto, todos acordamos e temos que escolher.

(...)O desafio que encontramos é reconhecer que as respostas para as perguntas mais inquietantes podem estar na nossa frente."


(Do episódio "Revelation Zero" da série "FlashForward")

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Cinco filmes franceses

Já está definida a programação de filmes franceses que serão exibidos em maio no Cineclube da Fundação Cultural BADESC, em Florianópolis. Toda segunda-feira tem sessão gratuita a partir das 19h.

03/05
Carta Camponesa - Lettre Paysanne (França, 1973). Dir: Safi Faye 98'

Um camponês abastado e mau caráter decide se casar. Sua futura esposa deve possuir beleza perfeita, mas, segundo ele, as mulheres de sua aldeia não correspondem aos seus critérios de escolha. Um dia, uma jovem belíssima de passado misterioso aparece...

10/05
Tudo Perdoado - Tout est Pardonné (França, 2007). Drama em Cores. Duração 95’ Dir: Mia Hansen-love Classificação etária 12 anos.

Victor vive em Viena com Annette, sua esposa e sua filha Pamela. É primavera. Fugindo do trabalho, Victor passa os dias fora, brinca com a filha e vadia no Parque. Apaixonada, Annette está confiante que ele se ajeitará. Mas Victor não abandona os maus hábitos e acaba se apaixonando por uma jovem junkie. Onze anos depois, Pamela descobre que o pai vive na mesma cidade e decide vê-lo novamente.
Prêmio Louis Delluc 2007.
Selecionado na Quinzaine des Réalisateurs – Cannes 2007.

17/05
Meu tio da América Mon oncle d'amérique (França, 1980).
De Alain Resnais. Com Gérard Depardieu, Nelly Borgeaud, Nicole Garcia, Roger Pierre. Drama em Cores. Duração 125’.

O título do filme faz alusão a um personagem obscuro. Não se sabe se ele está morto, rico ou miserável, numa América que jamais aparece. Os labirintos aqui trilhados são os dos textos científicos de Henri Laborit. Alain Resnais é uma das personalidades mais marcantes do cinema francês: Meus filmes são uma tentativa, ainda que grosseira e muito primitiva, de aproximar-se da complexidade do pensamento, de seu mecanismo....
Cannes 1980: Grande prêmio do júri e Prêmio Fipresci

24/05
Khamsa (França, 2008).
De Karim Dridi. Com Marc Cortes, Medhi Laribi, Raymond Adam , Simon Abkarian, Tony Fourmann. Cores. Duração 95’. Classificação etária 12 anos.

Depois de fugir de sua família adotiva, Khamsa volta para o acampamento cigano onde nasceu 13 anos atrás. Nada parece ter mudado desde que ele foi forçado a partir, os jogos de cartas tarde da noite, o mergulho no mar Mediterrâneo, as brigas de galo... Khamsa está novamente em casa. Até que seu melhor amigo Coyote conhece Rachitique, um ladrãozinho, com quem começa a realizar pequenos furtos. A juventude e a inocência de Khamsa irão rapidamente acabar à medida que ele desce numa espiral de delinquência.
Oscar 1981: Indicado na categoria melhor filme estrangeiro

31/05
Obras, a gente sabe quando começa... Travaux, on sait quand ça commence.... (França/França, 2005). De Brigitte Rouan. Com Aldo Maccione, Carole Bouquet, Didier Flamand, Jean-Pierre Castaldi. Cores. Duração 95’. Classificação etária livre.

Chantal é uma brilhante advogada, especializada em defender imigrantes. Imbatível e implacável no tribunal, na vida privada ela é condescendente com seus dois filhos adolescentes e o ex-marido. Decidida a fazer uma reforma no seu apartamento, ela contrata os serviços de um grupo de colombianos. A obra se transforma num pandemônio, e Chantal chega à beira de um ataque de nervos.

A Fundação Cultural fica na rua Visconde de Ouro Preto, 216, centro.
Mais informações (48) 3224 8846


quarta-feira, 28 de abril de 2010

#Doe palavras

Vamos descobrir o poder que têm as palavras?

O projeto criado pelo Instituto Mário Penna de Belo Horizonte/MG pretende levar mensagens de força aos pacientes com câncer. Qualquer pessoa pode participar pelo site www.doepalavras.com.br ou pelo twitter usando a hashtag #doepalavras. Depois de passar por um filtro, as mensagens enviadas são exibidas em TVs dentro do hospital, em locais onde os pacientes mais precisam de incentivo e força, como a sala de quimioterapia.

Assim como o Instituto fez, vamos apostar na sensibilidade humana??

terça-feira, 27 de abril de 2010

O ouro que ninguém vê



De repente a tempestade chega ao fim
e o que aparece no céu enche os olhos de admiração


sexta-feira, 23 de abril de 2010

Entrevista ponto-com

Rose: O seu nome, Marcelo Canellas, está ligado a grandes reportagens de conteúdo humano. Como repórter especial da Rede Globo há 18 anos, você já teve o trabalho reconhecido e premiado várias vezes. O que motivou você a seguir por este caminho do jornalismo social?

Marcelo Canellas: Sempre acreditei ser impossível separar o cidadão do jornalista. Portanto, tudo o que me incomoda como cidadão me incomoda também como jornalista. E é justo que minhas preocupações de cidadão virem substância informativa, reportagem, notícia. Cláudio Abramo, num artigo famoso, disse que a ética do marceneiro é igual à do jornalista. Quer dizer, ética é uma só: se você não engana e não mente como pessoa, não pode mentir nem enganar como jornalista. Vivendo no Brasil, e vendo as contradições da sociedade brasileira, não há como, do ponto de vista ético, não fazer disso tudo matéria prima do jornalismo.

Rose: Na série de reportagens sobre a Fome, uma das mais premiadas do Jornal Nacional, você viu de perto o drama vivido por pessoas que não têm o que comer. Diante de situações como esta é difícil para o jornalista não se envolver emocionalmente. Qual foi o momento mais difícil que você enfrentou durante a execução deste trabalho? E o que você aprendeu de mais importante?

Marcelo Canellas: O momento mais difícil foi o encontro de minha equipe com uma lavadeira de um lugarejo no interior do município de Araçuaí, no Vale do Jequetinhonha, em Minas Gerais. Ela estava com anemia profunda e tivemos muito medo de que fosse morrer a qualquer momento. Fizemos uma vaquinha para comprar víveres e deixar em sua casa. Depois chamamos uma ambulância para que ela recebesse cuidados médicos. Enquanto esperávamos, conversamos bastante; e dessa conversa resultou uma das mais emocionantes reportagens que fiz na vida. Nunca esqueci o nome dela: Maria Rita Costa Mendes. Continuamos, nas semanas seguintes, a percorrer o Brasil em busca de novas histórias para a nossa reportagem. Mas o desconforto da conversa com Maria Rita não nos abandonou um instante sequer. Quinze dias depois ela viria morrer em decorrência da desnutrição aguda. Foi um baque para todos nós, e também uma lição de humildade: por mais força que tenha, o jornalismo não consegue mudar a realidade brasileira. Nosso papel é jogar uma luz sobre temas que estão obscurecidos pelo desconhecimento ou pelo olhar viciado, cansado, que não consegue enxergar nem mesmo fatos contundentes. Entretanto, para mudar a realidade, só com a ação política da sociedade organizada.

Rose: Você é gaúcho de Passo Fundo (RS), mora em Brasília e tem viajado muito pelo país nestes seus 20 anos de jornalismo. Pode-se dizer que você conhece bem o Brasil?

Marcelo Canellas: Seria um tanto pretensioso dizer que conheço bem o Brasil, apesar de ter esquadrinhado, ao longo de 20 anos, todos os 27 estados e o Distrito Federal, onde moro. Mas posso dizer, com segurança, que conheci bem e aprendi a respeitar e a admirar o engenho criativo do povo brasileiro, manifesto na sua cultura e no seu modo de enfrentar as adversidades.

Rose: O Globo Repórter mostrou há pouco tempo uma sucessão de histórias de brasileiros que não têm uma relação formal com o estado, ou seja, não possuem registro de nascimento. Quando você retorna de uma série de reportagens como esta ou outras feitas em lugares distantes, como se sente olhando de volta para a “civilização”? Você mesmo traz para si novas reflexões?

Marcelo Canellas: É claro que a gente acaba se transformando um pouco a cada nova reportagem. Sou sempre um novo repórter sempre que volto do “Brasil profundo”. E acredito que vou ficando também uma pessoa melhor a cada retorno.

Rose: Ao deixar de lado grandes furos jornalísticos e optar por uma matéria-prima mais humana nas reportagens, dando voz a pessoas comuns, muitas vezes você não se considera um jornalista nadando contra a corrente?

Marcelo Canellas: É claro que não sou contra o furo. Muito ao contrário, o furo de reportagem deve ser perseguido por todo jornalista. O que não quer dizer que assuntos considerados “batidos” não tenham a sua importância na agenda de cobertura. Um assunto só é “batido” quando é enfocado sob os mesmos clichês enfadonhos de sempre. Ao buscar um viés criativo, o jornalismo é capaz de surpreender o leitor, o ouvinte ou o telespectador, qualquer que seja o tema abordado. No que diz respeito à cesta de notícias hegemônicas da agenda dos meios de comunicação, às vezes me sinto, sim, nadando contra a corrente da mesmice. Mas posso garantir que estou bem acompanhado. Existem muitos repórteres, de todas as mídias, que, felizmente, se preocupam em retratar as contradições da sociedade brasileira.

Rose: Você fica plenamente satisfeito com o resultado de seu trabalho? Que críticas faz a si mesmo em particular?

Marcelo Canellas: Costumo ser bem rigoroso comigo mesmo. Mas nem sempre acerto a mão. Além disso, reconheço algumas limitações. Por exemplo, não sou muito bom nas transmissões ao vivo. Como gosto de escrever, e sou detalhista em relação à escolha das palavras, nunca fico satisfeito com minhas intervenções ao vivo.

Rose: Nas palestras para estudantes de jornalismo você sempre enfatiza a importância do trabalho em equipe (indispensável não só na TV), da humildade intelectual e da ética profissional. Você considera estes pilares fundamentais para a formação de um bom jornalista? E o que mais você acrescentaria como primordial para exercer a profissão?

Marcelo Canellas: Sem dúvida. São os pilares da profissão. Além disso, eu acrescentaria o rigor com a precisão da informação, o que depende sempre de checagem (e de re-checagem) obstinada.

Rose: Lembro de uma crônica sua que fazia uma comparação entre o passado e o presente. E no final do texto, ao concluir que antigamente tudo era mais demorado e difícil, você perguntava “então por que engolimos o almoço? Por que estamos sempre atrasados? Por que ninguém mais bota cadeiras na calçada? Alguém pode me explicar onde foi parar o tempo que ganhamos?” Nesta correria que, sabemos, é a vida de jornalista você consegue achar tempo para o lazer? E nestas horas o que você gosta de fazer?

Marcelo Canellas: É claro que acho tempo para mim, para a minha família e para os meus amigos. A vida seria muito chata se ficasse restrita ao trabalho. Gosto de brincar com meus filhos, de sair com os amigos, de assistir aos jogos do Internacional de Porto Alegre (meu time do coração) na televisão, e de jogar minha pelada semanal. Gosto de cuidar de meu sítio nos arredores de Brasília onde planto feijão, milho, mandioca, hortaliças e crio galinhas caipiras.

Rose: Qual o tipo de música que você gosta de ouvir?

Marcelo Canellas: Música Popular Brasileira e Blues são minhas preferências.

Rose: E no cinema, quais suas preferências?

Marcelo Canellas: Assisto de tudo. De filmes infantis, com os meus filhos, até comédias românticas. Ir ao cinema é sempre um grande programa, mesmo que o filme seja ruim. Mas minha preferência é o cinema italiano: Felini, Irmãos Tavianni, Visconti, De Sica, etc.. Um dos meus preferidos é “O Baile”, de Ettore Scola, que conseguiu a proeza de realizar um filme fascinante sem um único diálogo sequer.

Rose: Sem falar em jornais e revistas, que tipo de leitura te atrai? Qual livro ou escritor você destacaria como essencial na sua vida?

Marcelo Canellas: Poesia: Mario Quintana, Drummond, Manuel Bandeira, Fernando Pessoa, José Paulo Paes.
Prosa: Graciliano Ramos, Clarice Lispector, Érico Veríssimo, Machado de Assis, Raduan Nassar, Guimarães Rosa, Rubem Braga, Gabriel García Márquez, Ernesto Sábato, Dino Buzzatti, Marcel Proust.

Rose: Há iniciativas interessantes no país para incentivar o hábito da leitura que, me parece, não são muito utilizadas pela população de baixa renda. Um bom exemplo disso são as bibliotecas móveis que percorrem bairros das cidades e oferecem um acervo invejável. Outro dia soube que um menor entrou armado em uma dessas bibliotecas para roubar um notebook. Os livros, entretanto, permaneceram intactos. Pode-se dizer que este é o retrato de um país de várias “fomes”? A seu ver, como o brasileiro se alimenta espiritual e intelectualmente?

Marcelo Canellas: Será impossível oferecer essa “alimentação espiritual” sem, antes, oferecer escola pública de qualidade.

Rose: O jornalista hoje não consegue mais trabalhar sem tecnologia? Você acha que a Internet está “roubando” o público da Televisão?

Marcelo Canellas: É claro que está. As novas mídias são uma realidade. E a tecnologia é uma ferramenta fantástica, cada vez mais barata e mais acessível. Por isso mesmo, o que vai fazer a diferença são as pessoas. Tecnologia na mão de gente despreparada é um instrumento estéril.

Rose: Para você o que é a televisão? De que maneiras o trabalho da imprensa cria (ou reproduz) realidades que vão pautar a vida das pessoas?

Marcelo Canellas: A televisão é apenas uma ferramenta. Não cria nada. Quem cria são as pessoas. Só jornalistas bem preparados e bem formados conseguem exercer nosso ofício em sua plenitude, qualquer que seja a mídia disponível.


*Entrevista originalmente publicada em agosto de 2008.